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14 de outubro de 2011

Amar é uma Decisão



Nem tudo o que dizem por aí é a exata expressão da realidade. Poetas e cantores tentaram definir o que é o amor. Vinícius de Morais o expressou nesses termos: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Jorge Vercilo cantou assim o amor: “O amor se fez me levando além onde ninguém mais. Criou raiz, ancorou de vez, fez de mim seu cais lendo a rota das estrelas”.

Sabe o que é interessante nessas poesias sobre o amor? É que elas manifestam a opinião popular sobre o amor. Nem sempre terão razão, pois a teologia popular nem sempre expressará a realidade objetiva. É altamente questionável a validade da máxima: “a voz do povo é a voz de Deus”.

De acordo com os dicionários, amor tem sido definido como “sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso; forte inclinação, de caráter sexual, por pessoa de outro sexo; afeição, grande amizade” (Dicionário UOL-Michaelis – outros dicionários seguirão a mesma linha). A primeira coisa que salta aos olhos nessa definição é o caráter espontâneo que atribuem ao amor, como se ele tivesse vida própria e volição independente. É o caso do Jorge Vercilo, que se retrata como alguém carregado pelo amor e impelido por ele. Já o mais famoso dos poetas da MPB, Vinícius de Morais, o retratou como “chama”. Sendo assim, não é eterno; pode se apagar. Então ele encerra com um dos mais belos paradoxos do ponto de vista poético: “que seja eterno enquanto dure”.

Embora seja belo o paradoxo, não é exatamente isso o que a Bíblia diz sobre o amor. A Bíblia retrata o amor de duas maneiras: “phileo”, que denota amizade; e “agapao”, que em algumas passagens denota intensidade, e afeição no sentido moral e social. Alguns o retratam como incondicional (como o “amor de Deus” ou o de Demas pelo presente século – 2Tm 4.10). Em definição, não difere muito do que os dicionários dizem, mas destoa muito da noção popular. Na concepção geral, o amor é um sentimento autônomo e que governa a mente, a vontade e as emoções. Enquanto ele se faz presente, move o ser humano para lá e para cá. A partir do momento em que ele se retira (por uma espécie de “vontade própria”), aí não há o que fazer.

Enquanto penso nessas coisas, me vem à mente uma dúvida. Se é assim, por que a Bíblia ordena que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos? Veja: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças. (...) Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12.30,31). Vou mais além. Se o amor é um sentimento espontâneo e de “vontade própria”, por que Paulo ordenou: “Maridos, amai vossa mulher como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5.25)? Meu ponto é o seguinte: Amor não é espontâneo; é fruto de uma decisão. Isso faz com que esses mandamentos da Bíblia façam sentido. De outra forma, pareceria insano que o Senhor ordenasse o amor a Deus e ao próximo.

Essa maneira de ver o amor traz muitas e sérias implicações. Em primeiro lugar, a noção popular de que eu preciso sentir o amor em meu coração para depois demonstrá-lo a alguém é uma falácia. Há pessoas que não amam ao próximo e dizem que não podem fazer nada, porque esse sentimento não brotou em seu coração ainda. Na verdade, a falta de amor (para não dizer ódio) foi fruto de sua decisão e, para justificar, apela à falta de espontaneidade do amor. Não temos escolha. Temos que amar nosso próximo! Quando o amor se torna fruto de uma decisão em nossa vida, o convívio se torna mais saudável e a reconciliação mais fácil.

Em segundo lugar, aqueles que enfrentam crise no casamento e alegam que o amor esfriou e que, assim, não podem mais fazer nada não possuem razão para tal alegação. O amor não é uma chama que se apaga por si só. É uma ordem do Senhor para que seja cultivado e mantido. O amor no casamento é fruto de uma decisão também. Eu decidi amar minha esposa porque entrei em aliança com ela. Curiosamente, Isaque primeiro se comprometeu com Rebeca; depois a amou (Gn 24.67). Hoje o casamento tem sido banalizado por causa dessa visão de que o amor tem que ser espontâneo. Hoje eu “amo”, então me caso. Amanhã “não amo mais”; me separo. Essa é a filosofia das novelas e dos livros de romance. A Bíblia diz: seja fiel à aliança; ame! (Ml 2.14; Ef 5.25). O amor é uma decisão!

Depois de ler isso, alguém pode se perguntar: o que posso fazer para que o amor seja cultivado, como fruto de uma decisão? Antes de mais nada, por mais ridículo que pareça dizer isto, ame! Decida amar. No caso dos casados, ame sua esposa, ame seu marido. Fale de seu amor, promova momentos agradáveis; evite as brigas e palavras grosseiras. Abuse dos presentes, do carinho, do abraço afetuoso. Surpreenda com flores, com um telefonema. Nos outros casos, do convívio fraternal, tenha consideração por seu próximo, mesmo porque ele foi feito à imagem de Deus. Pense sobre ele: “será que ele está bem? Será que está feliz? Como posso ajudar?” A Bíblia diz que devemos considerar “uns aos outros para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hb 10.24). Faça do amor sempre uma decisão positiva. Ame a Deus! Ame ao próximo! Porque da obediência a estes mandamentos dependem toda a lei e os profetas.

Pr. Charles

9 comentários:

Alfredo de Souza disse...

Num mundo onde tudo é efêmero, pensar o amor de Deus é alegrar-se com aquilo que é eterno.

Charles, parabéns pela postagem.

Milton Jr. disse...

Excelente Charles,
Devemos resgatar a posição bíblica sobre o amor.

O entendimento de amor como mero sentimento tem causado estragos nos lares. Há maridos que afirmam amar suas esposas, mas espancam-nos. Pais que dizem amar os filhos e não os disciplinam.

Ficam somente no mero falar. Essa, creio eu, é a razão de João escrever: "Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade" (1Jo 3.18).

grande abraço.

Charles Melo disse...

Alfredo e Milton,

Obrigado! Só de ler o comentário do Milton, já me passou pela cabeça uma nova ideia de um artigo sobre isso. Pelo jeito, ainda há muito a ser dito sobre o amor.

Abraço!

Elizeu Rodrigues disse...

Diz uma cancão em inglês: "Say I love you is not the word I want to hear from you"-Dizer eu te amo não é a palavra que eu quero ouvir de você-Extreme.

Amor é mais que escolha. Jesus diz: "o homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; o mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal". O homem bom sempre vai escolher amar, sempre, sem nenhum pré requisito, sempre incondicional. Ele vai amar e pronto, por causa daquilo que tem dentro, no coração.

Agora o homem mau jamais amará alguém e, se amar (mentira), fará por algo em troca, um escambo, como Jesus diz também: "Me chama de Senhor, e não fazem o que digo"

Ana Carolina disse...

Pr. Milton, e há ainda aqueles que dizem amar tanto que matam a pessoa amada... completa loucura deste mundo caído!

Amar é verbo, ação, decisão, atitude, mandamento! O mundo diz que o amor é um sentimento efêmero e fugaz; a Bíblia diz que é uma dádiva do Senhor que nos amou primeiro e, este amor que agora conhecemos, devemos partilhar. O mundo diz "siga o seu coração"; e a Bíblia diz "o coração é enganoso".

Sou continua e crescentemente grata a Deus por ter me resgatado do lamaçal deste mundo perdido e ter aberto os meus olhos para tão tristes enganos.

Lelis Moretto disse...

Então, sempre me faltava algo para entender isso, o amor. hoje concordo, e uma ordem e que ordem tao boa e desafiante. Amar e amar, sempre amar. E isso e uma ordem vinda de Deus, vamos amar meus irmãos, amar todos.

Hebert disse...

Muito bom o texto. É uma visão que a cada dia, tenho resgatado em minha vida. O amor é decisão, é um ato. Não um sentimento independente de qualquer outra cousa, que nos faz agir por impulsos como pessoas cegas e bêbadas. Tomei a liberdade e republicar no meu blog iniciante, ok?

hebertchagas.blogspot.com

Renata disse...

Vc estão confundindo os tipos de amor. Além disso não se pode confundir amor que temos a Deus, com amor entre homem e mulher. A questão não é tão simples assim como vcs querem que pareça.Amor entre homem e mulher tem que ser dos dois lados, o cultivar e manter também, desde que ele exista, é claro. Se acabar é porque nunca existiu. Não se pode obrigar ninguém a amar. Decidir amar é tão ridículo. Se fosse assim combinaria com o homem mais bonito, honesto e rico do mundo a me amar e ele a mim. Simples né. É por essas e outras que a igreja está cheia de casamentos de aparência, falidos. Estão todos fingindo que amam, ora, é só decidir, não é.......

Calebe disse...

Achei ótimo o texto. Enquanto a concepção popular diz que "ninguém manda no coração", nós cristãos somos convidados a domá-lo!