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26 de fevereiro de 2011

A TRAGÉDIA E O CRIADOR: QUAL A RELAÇÃO?

O Brasil e o mundo estão chocados com o número de tragédias naturais que ceifaram centenas de pessoas recentemente. No início do ano assistimos perplexos aos desmoronamentos no Rio de Janeiro e agora os violentos terremotos na Nova Zelândia onde várias várias famílias sofreram com a morte e a destruição.

Tais acontecimentos inquietam o coração e trazem o choro de tristeza e de condolência. O sentimento interior é como se as entranhas fossem retorcidas violentamente, virando-as do avesso de profundo pesar para com tantos que sofrem perdas irreparáveis. Por outro lado, há a promoção da solidariedade, pois é dever de cada um fazer o mínimo diante do máximo. Como é bom participar de campanhas solidárias destinadas aos flagelados. Cada um deve fazer a sua parte diante do quadro aterrorizador e destrutivo, embora saibamos que muito mais poderia ser feito.

Sempre que nos deparamos com as tragédias naturais, não podemos escamotear o fato de que há um Deus perfeito e justo que a tudo contempla. Nada escapa à sua observação, pois seus olhos estão em toda parte, perscrutando a tudo que passa nesse mundo e fora dele. A perplexidade aumenta quando sabemos que ele também é um Deus de amor, graça e misericórdia. E é exatamente aqui que surge a pergunta:

"Como conciliar o caráter de Deus com acontecimentos tão destrutivos?"

Essa complexa indagação tem gerado muitas discussões acaloradas entre os teólogos e cristãos ao redor do mundo, suscitando as mais diversas opiniões.

Nesse caldeirão de debates há os que se alinham ao humanismo vigente e afirmam que Deus apenas permite que tudo isso ocorra. É como se ele visse o mal iminente e, ou por incapacidade ou por desejo próprio, aceita com passividade. Outros recrudescem mais ainda e afirmam que Deus, por abrir mão da sua soberania, simplesmente não sabe nada sobre o futuro e, assim como os seres humanos, fica surpreso com os acontecimentos e torce para que haja o mínimo de perdas entre as vítimas. Há ainda os que acreditam que Deus deixou o mundo a sua própria sorte como se estivesse distante ao ponto de não se envolver com os acontecimentos terrenos. Usando os rótulos como resumo, tais pessoas são simpatizantes da teologia arminiana, teologia do processo, teologia relacional ou teologia deísta.

Embora haja diversidades nas nuances, o fundamento do que foi colocado até aqui é o mesmo, ou seja, de alguma forma Deus é limitado em sua pessoa e caráter. É como se tivéssemos uma divindade mensurável cuja escala é profundamente demarcada pela efemeridade humana, ou seja, a divindade é a imagem e semelhança da criatura. Em suma, o homem é que é a medida de todas as coisas e Deus não poder ser excetuado desse processo.

Na contramão de todas essas afirmações, a minha visão destoa em absoluto. Eu creio num Deus que a tudo rege e que em tudo cumpre o seu propósito. Creio também que as catástrofes são todas determinadas por ele e tudo acontece segundo a sua vontade. Diante disso, e baseado nas Escrituras, mais particularmente em Jó 36: 22 a 37 ;13, quero propor três pontos que estão presentes nas determinações de Deus sobre a natureza. O que quero dizer é que há, sim, como explicar essa inquietante relação entre o Deus que flagela pela natureza e seu propósito justo e bom. Eis, então, porque o Senhor determina tragédias por meio da criação e o que essas tragédias podem nos comunicar.

1. As tragédias são peculiares à natureza. A grande maioria dessas tragédias naturais não são manifestações miraculosas, ou seja, elas não contrariam o que já é peculiar às leis naturais. Nem tudo ocorre pelo acaso ou por uma intervenção da mão de Deus em quebrar o fluxo normal da natureza como foi o caso de Sodoma e Gomorra. Tudo obedece às regras definidas no mundo natural. Enchentes, incêndios espontâneos, terremotos, maremotos, erupções vulcânicas podem ser identificados pela ciência e até mesmo, em alguns casos, evitados ou previstos. Todos sabem que o mundo geme por causa do pecado. As desordens e as manifestações belicosas que fazem a natureza voltar-se contra si mesma são resultados do que ocorreu no Éden e demonstram o curso tomado pelos animais, minerais e vegetais. Portanto, não podemos dispensar a possibilidade de a ordem natural do mundo em que vivemos resultar em uma ecatombe. As grandes catástrofes acontecem como fenômeno natural.

2. As tragédias sancionam o juízo de Deus. Dizer que as catástrofes são majoritariamente peculiares à natureza não quer dizer que negamos o controle e a regência do Criador sobre o universo. A providência é real e necessária. Portanto, a mão de Deus também rege as catástrofes da natureza e isso ele faz para trazer juízo sobre o homem. A maioria sabe que o Senhor firmou um pacto que manifesta o seu reino e culmina na expiação de Cristo, mas essa bendita aliança também culmina no juízo eterno. Logo, o pacto trás bênçãos, mas também traz maldições. Assim como as bênçãos podem ser percebidas no cotidiano do crente, essas maldições não serão manifestas apenas no dia do julgamento final. Há hoje em dia, sobre a impiedade humana, centelhas da ira de Deus que se manifestam na entrega sem reservas desse pecador à sua depravação total, ou na promoção da dor e do sofrimento extremo. Aqueles que estão fora da habitação do Espírito do Senhor vivem debaixo dessa santa e justa ira que só estanca quando a salvação de Cristo se torna presente.

Quando há tantas vítimas das tragédias naturais, ali está o juízo de Deus, pois esse Deus soberano derrama do seu furor ainda nos dias de hoje. É por isso que há a necessidade do temor no coração e o profundo respeito ao grande Vingador que também pune com rigor. Não nos enganemos, catástrofes naturais são a manifestação do juízo divino sobre a terra.

3. As tragédias sancionam a misericórdia de Deus. Parece contraditório à nossa mente, mas é isso mesmo que ocorre. Como exemplo, podemos falar do plano salvífico de Deus que traz, ao mesmo tempo, salvação e juízo. Ou mesmo nós, como pais, quando disciplinamos os nossos filhos, há ali uma espécie de castigo e, ao mesmo tempo, ação de responsável amor. Ao mesmo tempo em que há a manifestação do juízo, há também a manifestação de sua terna misericórdia sobre os que saem ilesos do temido processo trágico. Nunca esqueço de uma cena que vi pelo noticiário na época do grande tsunami ocorrido no oceano índico em dezembro de 2004. Um bebê que se salvou milagrosamente porque boiou sobre detritos que flutuaram sobre as águas enlameadas. Quando vi os familiares abraçando a criança, não havia como evitar as lágrimas nos olhos e a declaração:

Como Deus é misericordioso!”

De uma maneira ou de outra, Deus manifesta a sua misericórdia e longanimidade diante das calamidades. Até mesmo quando me vejo distante de tanta destruição, percebo o cuidado e o afeto do Senhor sobre a minha vida e a vida dos vivem ao meu redor.

Quero concluir esse texto reafirmando que a soberania divina abarca todas as situações da vida fazendo com que eu entenda o sentido do temor do Senhor e da alegria no Senhor. Ele nunca é injusto, nunca age em desamor, nunca deixou de ser Deus!

Sola Scriptura.

11 comentários:

Ligian disse...

Pastor, como é difícil vermos as coisas da ótica certa, não?! Tão mais fácil falar como certo pastor tem afirmado por aí: "Deus não tem nada a ver com isso". Crer na soberania de Deus implica em crer que ele tem controle absoluto sobre todas as coisas e age de acordo com isso!
Excelente post!
Até breve!

Samuel Vitalino disse...

Alfredo. É isso aí. Simples, direto e verdadeiro.

Charles Melo disse...

Alfredo,

Maravilhoso como você demonstrou a misericórdia de Deus mesmo na tragédia. Parabéns pelo post!

Abraço!

Alfredo de Souza disse...

Meus queridos Ligian, Samuca e Charles.

Obrigado pelos comentários que trazem motivação.

Grande abraço.

Alan Kleber Rocha disse...

Alfredo,

Parabéns pelo post!

Felizes são todos aqueles que se refugiam em Cristo (Sl 2).

Anônimo disse...

Pastor Alfredo,

seu texto é muito bom mas creio que o senhor poderia ter explorado mais as obras humanas em relação aos desastres. Às vezes nem precisamos ir tão longe e indagar porque desastres naturais ocorrem. Na Região Serrana do Rio de Janeiro isso foi quase óbvio até. Construções irregulares nas encostas com negligência de órgãos públicos só podia resultar em tragédia. Mesmo a Nova Zelândia sofreu menos. Se o que ocorreu lá tivesse ocorrido no Brasil, tenha a certeza de que 5 vezes mais pessoas teriam morrido (vide também o desastre na Áustralia esse ano, menos de 30 morreram). Ou seja, muito se resolve por infra-estrutura. (mas, também, a tsunami da Ásia não se encaixa nesse raciocínio, cabendo uma análise teológica).

Atenciosamente,
Daniel Subkoff

Alfredo de Souza disse...

Daniel.

Você tem razão ao afirmar que o problema do Brasil se encaixa na tão conhecida teoria de Edward Murphy. Todavia, mesmo que haja catástrofes anunciadas, estas estão presentes na vida humana. Minha postagem tenta refletir sobre esta presença de acordo com a cosmovisão reformada.

Grande abraço.

Anônimo disse...

Entendi pastor, obrigado por responder! Eu mesmo não consigo ter um entendimento perfeito sobre o assunto porque nada assim ocorreu comigo e, por isso, sou humilde em afirmar que não consigo entender a dimensão do desespero dessas pessoas. Espero que Deus nos ajude a perseverar e manter o coração aquecido na ajuda.

Um abraço,
Daniel

Shirley Mattos disse...

Pastor, penso que mesmo quando as catástrofes sejam explicadas por meio da ciência, e como o Anônimo falou, por motivos sociais, no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo, as vidas envolvidas são vidas do Senhor, como tudo à ELe pertence. Por mais que nos pareça injusto a soberana e amorosa mão de Deus rege todas as coisas!!!

Alfredo de Souza disse...

Shirley, é isso mesmo!

Grande abraço.

Anônimo disse...

Esse texto é mais uma prova do amor de Deus. Agora com a tragédia no Japão fiquei muito atordoado e com um certo pavor, mas pela graça de Deus pude ser consolado por esse texto. Glória a Deus por isso.