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3 de março de 2011

Do terror à comédia ou, o que estão fazendo com o evangelismo?

theatre-mask1 As Escrituras falam de forma inequívoca sobre a tarefa de evangelização da igreja. É sua missão fazer discípulos de todas as nações, ensinando-os a guardar todas as coisas que o Senhor Jesus ordenou (cf. Mt 28.18-20). Para cumpri-la os discípulos foram ordenados a ser testemunhas em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra (At 1.8).

Observando o livro de Atos percebe-se rapidamente que já em seu início a igreja começou cumprindo muito bem o seu papel. Só para exemplificar temos, no capítulo 2, Pedro pregando um sermão extraordinário que leva a multidão a perguntar o que fazer para receber a salvação. A resposta é imediata: “arrependei-vos [...] para a remissão dos vossos pecados” (At 2.38). No capítulo 8 vemos também Filipe, diácono da igreja, sendo enviado ao deserto e encontrando ali um eunuco que lia o profeta Isaías. Ele se aproxima do carro e tem a oportunidade de anunciar o evangelho. Chama a atenção o registro de Lucas dizendo que Filipe “começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus” (At 8.26-40).

Meu ponto aqui é destacar que o anúncio do evangelho deve levar em conta toda a Escritura. Aqueles que ouvem a mensagem da salvação devem entender que todos os homens caíram em Adão estando, por isso, separados de Deus e sob sua justa e santa ira. Devem ser comunicados de que o salário do pecado é a morte, mas que Deus, em sua infinita misericórdia, puniu seu próprio Filho que tomou sobre si os pecados do seu povo na cruz do Calvário a fim de que, pela fé nessa obra redentora, o pecador arrependido seja reconciliado com Deus.

A Bíblia é bem clara ao enfatizar que o homem natural, morto em seus delitos e pecados é incapaz de compreender essa mensagem (1Co 2.14; Ef 2.1), por isso mesmo, cabe ao Espírito do Senhor convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8) e lhe conceder a fé salvadora, pela graça de Deus (Ef 2.8). A evangelização, nesses moldes, tem o Senhor como centro e o glorifica do início ao fim.

Sendo assim, o papel da igreja na evangelização deveria ser o de fidelidade à mensagem bíblica anunciando a miséria em que o pecador se encontra, demonstrando que, por isso, ele está perdido e apontando para o amor de Deus evidenciado na cruz do Calvário, na esperança de que o Senhor salvará a quem quiser pela loucura da pregação (1Co 1.21).

A despeito disso, a evangelização teocêntrica que acontecia de forma natural na igreja primitiva foi perdendo espaço. A proclamação que era feita primeiramente para a glória de Deus, começou a ser feita porque o homem precisa ser salvo. Veja bem, não estou nem de longe dizendo que ao evangelizar não devemos ter expectativas de que o Senhor salvará pecadores, mas que o alvo principal da evangelização não pode ser esse e sim a glória de Deus. Parece uma besteira o que estou afirmado, mas pense nas implicações:

Quando se evangeliza teocentricamente, isto é, pensando primeiramente na glória de Deus, não há porque negociar a mensagem por mais dura que possa parecer. Tem-se a certeza de que, pela exposição fiel da Escritura, Deus chamará pecadores ao arrependimento.

Quando, porém, a evangelização é antropocêntrica, pensando primeiramente em salvar o pecador, a mensagem acaba por ser deturpada, pois o objetivo é convencer, a qualquer custo, o homem de que ele deve se voltar para Deus. Daí acontecem as distorções, das quais destacarei somente duas que tenho percebido desde minha conversão.

A evangelização do terror

Eu ainda era neófito quando assisti na igreja que frequentava uma peça intitulada “A última trombeta”. O teatro, de orientação pré-milenista dispensacionalista, era baseado numa pretensa revelação dada pelo Senhor em 1952 e mostrava os horrores que acontecerão por ocasião do arrebatamento: famílias desesperadas pelo sumiço dos parentes e amigos e grande desespero de muitos que entenderam que Jesus havia buscado os seus e eles, que não tinham subido no arrebatamento, teriam de enfrentar a grande tribulação.

Quando a peça terminou e houve o apelo, quase me converti novamente, de tão amedrontado que fiquei. O medo ainda me impeliu a querer ser mais santo, não para que Deus fosse glorificado nisso, mas para não correr o risco de acabar parando no inferno. Muitos naquele dia também “creram”, mas simplesmente por causa do medo e não por amor ao Redentor que morreu a nossa morte a fim de termos vida.

A tendência ao terror também era frequente na boca dos pregadores. Ouvi certa vez, já na época do seminário, uma excelente exposição de um pastor sobre Paulo no Areópago, mas no fim ele conseguiu estragar tudo. Ao fazer o apelo, contou a história do voo da TAM que havia partido de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro, mas que não chegou ao destino porque o avião caiu e todos morreram. Logo veio a pergunta: “E se você estivesse naquele voo?” e emendou: “Creia antes que seja tarde”. Novamente pessoas “se decidiram” por Jesus, mas, no fim das contas, ao invés de louvar o Salvador por sua obra bendita na cruz para nos libertar do pecado e nos reconciliar com Deus, pareciam mais estar assinando uma espécie de seguro de vida gospel, só para garantir, caso acontecesse alguma coisa ao sair da igreja.

Não nego a verdade bíblica que o Senhor virá com sua ira sobre todos aqueles que não se renderem a ele, mas quando a evangelização pesa muito mais para essa parte da história, deixa-se de falar da provisão de Deus para que o homem tenha redenção. A lógica parece ser a de que, mesmo que seja por medo, o importante é o homem “aceitar a Jesus”.

A evangelização da comédia

Nos últimos tempos, porém, uma nova tendência assola a igreja, a de fazer graça com o Evangelho. A ideia é tirar o peso e a seriedade da mensagem, deixando-a mais light, para que os homens não a vejam com tanta antipatia.

Os discursos para validar a prática são os mais variados e vão desde a afirmação de que “Deus é humor” até uma que li dia desses que dizia que o humor das parábolas de Jesus pode ser a chave hermenêutica para a compreensão de suas histórias.

Conquanto eu entenda que Jesus usa da ironia por várias vezes em seus ensinos, isso não justifica alguém vestir-se de palhaço para tornar o evangelho mais palatável. Um amigo falou esses dias que, do jeito que as coisas vão, daqui a pouco teremos um “stand-up preach”, numa alusão à bola da vez no mundo do humor, a stand-up comedy.

Não estou levantando a bandeira do “pastor carrancudo”. Não creio que precisemos ser assim para comunicar o evangelho, mas o outro extremo é também pernicioso. Hermisten Maia, em seu excelente texto (O palhaço e o profeta: uma indefinição de nossos dias), cita acertadamente uma crítica de Albert Martin: “O esforço desnatural de certos pregadores para serem ‘contadores de piadas’, entre a nossa gente, constitui uma tendência que precisa acabar. A transição de um palhaço para um profeta, é uma metamorfose extremamente difícil”[1]. No mesmo texto ele escreve:

Imaginem um jovem entre centenas de outros, ansiosamente procurando seu nome nas listas afixadas nas paredes na universidade a fim de saber se foi aprovado ou não no vestibular. De repente surge um amigo com um sorriso largo e com os braços abertos, dizendo: “parabéns, você foi aprovado”. O jovem dá-lhe um abraço apertado, pula, grita, ri, chora, comemora... Depois de alguns minutos de euforia, aquele “amigo” diz: “É brincadeira; seu nome não consta entre os aprovados”. Se você fosse aquele vestibulando, como reagiria? Pense nisto: Se você corretamente não admite brincadeiras com coisas sérias, o Evangelho, que envolve vida e morte eternas, seria passível de brincadeiras, de gracejos? A pregação é assunto para profetas, não para palhaços. Pensemos nisso[2] (grifo meu).

Voltando ao padrão

Quando a salvação do homem é a primeira e principal razão para a pregação do Evangelho muda-se a mensagem a fim de que por medo, ou por divertimento, os homens se acheguem a Cristo.

Quando, porém, a preocupação primeira é a glória de Deus, a igreja pode pregar com fidelidade e com toda a seriedade devida, sabendo que o Senhor cumprirá os seus planos e salvará o seu povo.

Como afirmei no princípio, é tarefa da igreja evangelizar. Entretanto, sendo Deus o autor da salvação e sendo a sua glória a razão primeira para a proclamação devemos, mais do que nunca, voltar ao padrão estabelecido na Palavra. O Deus que ordenou a evangelização estabeleceu também o modo como a igreja deve lidar com sua Palavra.

Que o Senhor nos ajude a ter o foco correto na evangelização e que, pela pregação fiel da Escritura, aqueles que são dele sejam alcançados pela graça bendita de Cristo Jesus, nosso Redentor.

Milton Jr.


[1] Albert N. Martin. O que há de errado com a pregação de hoje?, São Paulo, Fiel, p. 23, citado por Hermisten M. P. Costa. O Palhaço e o profeta: uma indefinição de nossos dias. Fonte: www.seminariojmc.br

[2] Hermisten M. P. Costa. O Palhaço e o profeta: uma indefinição de nossos dias. Fonte: www.seminariojmc.br

19 comentários:

Ewerton B. Tokashiki disse...

Caro Rev Milton

A sua crítica foi muito boa. As pessoas não querem tanto ouvir e refletir, ou ler e meditar. Apenas receber encenações de impacto, mesmo que sejam peças reconhecidamente fictícia, não importa! Interessa sentir, temer, rir, gargalhar, entreter e ansiar o fim. E no fechar das cortinas termina-se todo o compromisso com a mensagem. Púlpitos tornam-se palcos, pregadores são substituidos por atores. Triste fim para onde a igreja caminha...

Alan Kleber Rocha disse...

Milton,

Parabéns pelo post!

Nosso país precisa de pregadores simples, porém profundos, cheios da graça e do conhecimento de Cristo Jesus.

Lugar de palhaço é no circo.

Grande abraço,

Charles disse...

Milton,

Que bela e séria mensagem! A Palavra é meio poderoso de graça e não precisa de ajuda! É só pregar com fidelidade! Como diz o MacArthur, "é como um leão; você não sai em sua defesa. Solta ele que ele se vira".

Abraço!

Alan Kleber Rocha disse...

Célebre frase de Charles Spurgeon!!!

Anônimo disse...

Caro Rev. Milton:
Graça e paz!

Apreciei seu artigo fruto de uma mente alimentada pela Palavra do Senhor.
Se for possível, ouça a mensagem que preguei recentemente, cijo título é: "A Bíblia e a Evangelização - de Gn a Ap" - www.fereformada.com.br .
Que o Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, lhes abençoe ricamente.

Jaime Marcelino

Milton Jr. disse...

Obrigado Ewerton,
O cenário evangélico brasileiro é mesmo complicado. Queira o Senhor continuar nos mantendo fiéis.

Milton Jr. disse...

Alan,
A tentação de ser "estrela" tem levado muitos a buscar o caminho do picadeiro.. triste.

Milton Jr. disse...

É isso aí Charles,
O instrumento de Deus para chamar pecadores é e sempre será sua Palavra pregada com fidelidade.

Anônimo disse...

Muito bom seu texto, bem escrito e com ótimo conteúdo teológico. Concordo com você, que a maneira certa de evangelizar é pela exposição fiel da Palavra de Deus. Pena que muitos tem distorcido essa maneira, fazendo que a motivação verdadeira de muitas conversões seja por interesse ou mesmo barganha.
Cíntia Matos

Milton Jr. disse...

Caríssimo Rev. Jaime,
Bom "ver" o senhor por aqui...
Obrigado pelo incentivo.
Grande abraço.

Milton Jr. disse...

Cíntia,
Obrigado pela visita.
Você está certíssima, muitas conversões hoje tem sido "fabricadas" e assim que as pessoas não recebem o que querem, decepcionam-se e não querem mais saber da igreja.

Naziaseno disse...

Milton,

A questão do evangeismo moderno gira em torno de fazer membros de Igreja em série. "Fazer discípulos" é outra coisa bem diferente! Entre membros de Igreja e discípulos de Jesus há uma diferença gigantesca similar ao céu e inferno! Aliás boa parte de membros de Igreja, segundo Jesus, habitarão nas trevas eternas -"Senhor, Senhor!!!".

Ashbel Simonton Vasconcelos disse...

Rev Milton,
Parabéns pelo post. A ideia de transformar o púlpito em palco é mesmo uma loucura completa, e não encontra nenhum apoio nas Escrituras. Mas se o povo anseia por entretenimento há quem os supra. Os falsos profetas estão aí pra isto.
ab
Simonton

Samuel disse...

Milton,

Mensagem necessária.

Grande abraço e obrigado por mais essa contribuição para o Reino.

Milton Jr. disse...

Naziaseno,
Você foi no ponto. Muitas, ou a maioria, das igrejas está preocupada simplesmente com o aumento de fiéis esquecendo-se da árdua tarefa de discipular...
Grande abraço.

Milton Jr. disse...

Obrigado Simonton.
E o pior é que cada dia isso aumenta mais...

Milton Jr. disse...

Valeu Samuel!!!

MARCELO disse...

Olá Pr. Milton,
Muito boa sua abordagem sobre esse
assunto tão relevante nos dias atuais. Dentro desse contexto, gostaria de saber a sua opinião, caso conheça, sobre o projeto teatral "Casa do Julgamento". http://www.casadojulgamento.com.br.

Forte abraço,
pb. Marcelo - IPB em Jaburuna

Milton Jr. disse...

Marcelo,
Nunca tinha ouvido falar desse grupo, mas, curioso que sou, fui dar uma olhada no site.
Numa análise bem rápida, diria que eles fazem justamente o que condeno aqui no post. Tentam tornar a mensagem mais agradável. Eles mesmos dizem no site:

"Nem uma outra ferramenta tem se mostrado tão eficaz em apresentar às pessoas uma oportunidade de escolherem um relacionamento pessoal com Jesus Cristo".

Percebe o ufanismo? Parece que a ordem daquele que disse: "pregai o evangelho a toda criatura" foi equivocada, ele deveria ter dito, ide fazei teatro... rs.

Brincadeiras à parte, creio firmemente no que ensina Paulo: "a fé vem pela pregação, e a pregação, pela Palavra de Deus" (Rm 10.17). O nosso papel é o de ser fiéis na proclamação da Palavra. Quanto ao convencimento, deixemos por conta daquele que chama irresistivelmente, como afirmamos doutrinariamente.

Bom "te ver" por aqui. Grande abraço.

Ps: Temos que marcar a vinda de vocês aqui em casa...