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28 de abril de 2011

Maldição hereditária ou pecado pessoal?

Há alguns anos o meio evangélico perpetua uma confusa e prejudicial doutrina. Este ensino diz que: "apesar de você ter Jesus como o seu Salvador, e ser salvo, é possível que existam maldições hereditárias, ou seja, maldições por causa dos pecados de algum antepassado que não foram confessados e perdoados, e que conseqüentemente, ainda recaem sobre a sua vida". Então, com esta doutrina se conclui que "por isso, você não é abençoado, não prosperá, e por causa disso você tem doenças e males que não consegue se livrar, apesar de ser salvo", e quando ainda não insistem que há demônios dominando a vida do sujeito. Quem viveu, ou conhece alguém que crê nisto sabe do prejuízo que este falso ensino causa.

Seus defensores, geralmente, usam como base bíblica a passagem em que Deus declara que "visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem" (Êx 20:5). Li anos atrás um texto do Rev. Júlio A. Ferreira em que dizia que: a Bíblia mal interpretada torna-se a mãe das heresias! Façamos justiça ao significado do texto, interpretemos o texto dentro do seu contexto. Sabemos que esta ameaça pronunciada por Deus se refere aos que não eram salvos, e permaneciam na idolatria, desprezando ao único Deus vivo e verdadeiro, revelado o Deus da aliança - Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. A Escritura não está declarando que apesar de convertidos Deus ainda assim persistirá em amaldiçoar por causa dos pecados dos pais! A maldição é para aqueles que aborrecem ao Senhor, e não sobre os que o amam; porque sobre os que amam o Senhor, a misericórdia perdurará até mil gerações! (Keil & Delitzsch, Biblical Commentary on the Old Testament, pp. 117-118).

É verdade que alguns textos nas Escrituras declaram que o pecado dos pais tem influência sobre a vida dos seus filhos (Lv 26:39; Is 55:7; Jr 16:11; Dn 9:16; Am 7:17). Mas, isto deve ser bem entendido, pois não é uma referência à maldição hereditária, mas à persistência dos filhos de não abandonar os pecados dos pais. Quando uma cultura familiar se torna pecaminosa, dá-se origem a vícios que são aprendidos e reproduzidos. Sendo fiéis ao contexto histórico de toda a narrativa, perceberemos que estas passagens são exortações ao arrependimento, porque a punição era por pecados que tiveram origem nos pais, ou antepassados mais remotos, mas eram pecados ainda perpetuados e praticados por eles mesmos. Nisto percebemos que o cultivo duma cultura familiar corrompida por vícios, idolatria e imoralidades, pecados que são cometidos em família, ensinados pelos pais aos filhos trará a ausência das bençãos pactuais de Deus, mas, cada um será responsável por si, e enquanto não houver verdadeiro arrependimento não haverá transformação.

Esta idéia de maldição hereditária se fazia presente no meio do povo de Israel durante a antiga Aliança. Certamente eles aprenderam com o paganismo das nações vizinhas muitas práticas e crenças que eram abomináveis ao Senhor. Por isso, o profeta Ezequiel denuncia o pecado do povo por acreditar "que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram?" (Ez 18:2). Entretanto, após a repreensão segue a intrução do Senhor dizendo: "tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá (Ez 18:3-4). A argumentação do profeta continua em todo o contexto posterior, deixando bem claro que cada um é responsável pelos seus próprios pecados, e não será o filho punido por causa do pai, nem o pai por causa do filho (versos 5-22).

Até mesmo os discípulos de Cristo necessitaram ser corrigidos deste erro. Numa certa ocasião encontraram um jovem cego de nascença, e questionaram: "mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?" (Jo 9:2). A redundante resposta de Jesus fechou o assunto, ao dizer que: "nem ele pecou, nem os seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus" (vs. 3). Os males físicos e temporais são instrumentos da providência de Deus, para que a Sua glória se manifeste no meio do Seu povo escolhido, e assim, a Sua vontade se torne conhecida (Jo:9:35-39; Rm 8:28).

Quando os verdadeiros crentes caem em pecado, mesmo pecados graves e escandalosos, eles não são abandonados por Deus. Deus nunca desiste deles (Rm 8:31-39). Como um Pai restaura os seus filhos, os disciplina “porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos”(Hb 12:6, ARA). O apóstolo Paulo afirma esta mesma verdade dizendo que “quando, porém, somos julgados pelo Senhor, estamos sendo disciplinados para que não sejamos condenados com o mundo” (1 Co 11:32). É possível cair em pecado, mas é impossível cair da graça de Deus. O teólogo inglês J.I. Packer declara que "às vezes, os regenerados apostatam e caem em grave pecado. Mas nisto eles agem fora de seu caráter, violentam sua própria nova natureza e fazem-se profundamente miseráveis, até que finalmente buscam e encontram sua restauração à vida de retidão. Ao rever sua falta, ela lhes parece ter sido loucura."[Teologia Concisa, p. 224]. O pecado é corrigido individualmente.

Como individualmente pecamos, também somos chamados ao arrependimento! Não posso me arrepender por outra pessoa; entretanto, devo interceder por ela, se ela estiver viva. Não é possível pedir perdão pelos pecados dos meus filhos, nem irmãos, pais, avós ou qualquer outro antepassado. Pecado é confessado, e somente é perdoado pessoalmente. A Bíblia diz que as bençãos da Aliança acompanharão os nossos filhos, pois eles são filhos da promessa. Se você é filho de Deus, você é co-herdeiro com Cristo Jesus do amor de Deus (Rm 8:16-17), e esta é uma promessa para os seus filhos (At 2:39). Mas a Palavra de Deus não ensina que os nossos pecados serão cobrados dos nossos descendentes. Deus haveria de puní-los por uma irresponsabilidade nossa? A doutrina da maldição hereditária nega tanto a suficiência de Cristo, em perdoar graciosamente os nossos pecados, como a fidelidade de Deus em cumprir as promessas da Sua Aliança conosco e com os nossos filhos.

Para uma leitura sobre Batalha Espíritual, ambiente em que boa parte do ensino sobre "maldição hereditária" se desenvolve, recomendo:
1. David Powlison, Confrontos de Poder (Editora Cultura Cristã).
2. Augustus Nicodemus Lopes, Batalha Espiritual (Editora Cultura Cristã).

8 comentários:

Ana Carolina disse...

Pr. Ewerton
Ainda ontem eu estava tentando instruir uma "neófita" de uma dessas igrejas que pregam erroneamente a existência de maldição hereditária. Lamento tanto pela má e falsa instrução de alguns que se dizem pastores e outros "cargos mais elevados" que apresentam textos bíblicos fora de contexto, não conduzindo as pessoas à Verdade que nos liberta (conf. Jo 8.32). Quando esse povo chegar diante do Senhor Jesus será que irão reconhecê-Lo e entrar no gozo eterno??
Esse assunto é tão sério, e estes homens agem sem o menor temor ao Senhor.
Além de divulgar no meu facebook, estou enviando o link em especial para a pessoa que mencionei.
Que Deus continue abençoando ao senhor na instrução bíblica do rebanho que é dEle!
Abraços

Carlos Alexandre disse...

Caro Pastor,
Sobre esta afirmativa: "É possível cair em pecado, mas é impossível cair da graça de Deus. O teólogo inglês J.I. Packer declara que "às vezes, os regenerados apostatam e caem em grave pecado".
É possível um regenerado apostatar da fé? Com relação a caírem em pecado grave, eu creio que é possível, basta a ausência da graça e cairemos no profundo poço.
Tenho dúvidas sobre os apostatas, inclusive o apóstolo Paulo , neste contexto fala "Há pecado para morte, e por esse não digo que ore".1 João 5:16.
Quanto tempo alguém pode viver na lama "Pecado" depois de ter conhecido a CRISTO, ou seja regenerado? Se é que possível.

Ewerton B. Tokashiki disse...

Querida Ana Carolina

Fico contente em poder contribuir com o entendimento deste assunto. A minha oração é que o Senhor Deus a abençoe no ensino fiel da Escritura Sagrada.

Tiago Cesar disse...

Texto bastante esclarecedor pastor. Ainda mais por causa das referências bíblicas, que fundamentam a explicação. Também fiquei particularmente feliz por compreender melhor essa questão. O mais interessante é que a Bíblia explica a si própria, não havendo, portanto, justificativas plausíveis para agirmos de forma reprovável aos seus ensinamentos.

Se o pastor tivesse deixado somente o texto do profeta Ezequiel já seria suficiente para desmascarar toda a questão. Que isso nos desafie a sermos profundos conhecedores das Escrituras. Só assim poderemos refletir a luz de Cristo para o mundo em trevas.

Abraços! Que Deus seja contigo e os seus!

M. Santos disse...

gostaria de sugerir que ao final dos posts houvesse, se possivel, a indicação de livros sobre o assunto, já que algumas vezes eu me interesso por alguns assuntos. obrigada pela atenção.

carlos coutinho disse...

Irmãos e Irmãs na Fé em Jesus.Dois versiculos mais me intrigam na Biblia Numa certa ocasião encontraram um jovem cego de nascença, e questionaram: "mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?" (Jo 9:2). A redundante resposta de Jesus fechou o assunto, ao dizer que: "nem ele pecou, nem os seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus" (vs. 3). Os males físicos e temporais são instrumentos da providência de Deus, para que a Sua glória se manifeste no meio do Seu povo escolhido, e assim, a Sua vontade se torne conhecida (Jo:9:35-39; Rm 8:28).
Como a resposta de Jesus pode ser possivel, se aquele cego e todos os cegos que nasceram e morreram não foram curados? Aonde manifestou-se a obra de DEUS face a pergunta dos questionadores? PF enviem-me a resposta a coutinhocarlos@ig.com.br DEUS OS ABENÇOE!

Carlos Eduardo disse...

E o que falar dos adventistas que colocam palavras suas dentro da bíblia,que tentam incluir a tal de Ellen White na biblia como sendo uma profeta?e às vezes dizendo que ela é mais importante que o próprio Jesus?e as atrocidades pscológicas que fazem aos seus fiéis?isto é uma das coisas mais bárbaras que tenho visto.

Carlos Eduardo disse...

E o que falar dos adventistas que colocam palavras suas dentro da bíblia? e querendo incluir a tal Ellen White na bíblia?fazendo dela uma personagem tão ou mais importante que Jesus?mudando o significado das leis de Deus?dando interpretações que lhes convém?eu como cidadão pensante e crítico,acho que o ensino da bíblia deveria ser mais sério,incluindo orgãos que acompanhassem estes ensinamentos,inclusive a polícia federal,já que esta gente está brincando com coisa séria.