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5 de julho de 2011

As palavras de Jesus são mais importantes que as de Paulo?

questionAqueles que não repararam que a pergunta é uma pegadinha já devem ter pensado: “Que pergunta mais óbvia é esta? Não há como comparar Paulo com Jesus...”.

Pensando somente na resposta, eu concordaria de imediato, afinal de contas o Senhor Jesus é perfeito e não pecou, enquanto Paulo é pecador como nós e, para usar suas próprias palavras, o principal dos pecadores (1Tm 1.15). Porém, a pergunta não se refere a Jesus e Paulo, mas àquilo que falou Jesus em comparação ao que falou Paulo.

Explico: não é de hoje que vejo cristãos afirmando ser aquilo que saiu dos lábios de Jesus mais importante que os ensinos do apóstolo. Com a publicação de uma versão da Bíblia em que as palavras de Jesus vinham destacadas em vermelho, o problema só aumentou. Em discussões doutrinárias o argumento de muitos passou a ser: “Esses versículos são mais importantes, pois aqui foi o próprio Senhor quem falou e não Paulo, Pedro ou algum outro.”

Recentemente uma irmã questionou o post escrito pelo Alfredo, que tratava da submissão da esposa ao marido, argumentando que o único a falar dessa submissão era Paulo, que Jesus nunca havia mencionado uma palavra sequer sobre esse assunto e que, como cristã, seguiria a Jesus e não ao apóstolo.

Aqueles que entendem dessa forma estão diante de um grande problema e caíram numa armadilha da qual nem se deram conta. O problema é o fato de não termos na Bíblia uma linha sequer escrita pelo próprio Senhor. O que temos são discursos atribuídos a ele, mas escritos pelos evangelistas, portanto não seria o caso de crer no que Jesus falou “em oposição” ao que falou Paulo, mas no que os evangelistas escreveram “em oposição” ao que escreveu Paulo, e aqui está a armadilha.

Uma alegação daqueles que estão na armadilha seria a de que os evangelistas andaram com Jesus e aprenderam com ele, enquanto Paulo foi um apóstolo que não teve contato com o Senhor. Eu perguntaria então como sabemos que os evangelistas andaram com Jesus e a resposta óbvia seria que eles mencionam isso em seus escritos. Se é assim, temos a mesma alegação nos escritos de Paulo que afirma: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, porque não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.11-12).

Quem entende que Jesus disse coisas opostas ao que disse Paulo tem então um grande problema a resolver, a saber, provar que Jesus, de fato, disse o que os evangelistas afirmam que ele disse.

O que está por detrás desse pensamento falacioso é um conceito errado sobre a Bíblia, é não entender que o Senhor é o autor primário das Escrituras sendo ela, então, “inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra” (1Tm 3.16-17).

Outro conceito errado decorre desse primeiro. Quando se aceita a inspiração, a autoridade da Palavra é do próprio Deus, mas negando-se isso a autoridade passa a ser de quem lê. Assim, o leitor aceita o que está em acordo com o seu pensamento e rejeita o que acha errado. É impossível não citar aqui as palavras de Agostinho que certa vez afirmou que “se, no Evangelho, você crê no que quer e rejeita o que não quer, não crê no Evangelho, mas em si mesmo”.

Quando se crê que Deus é autor primário das Escrituras, sendo os escritores apenas instrumentos para registrar a sua vontade de forma infalível (2Pe 1.20-21), como é o meu caso, não se tem o problema relatado acima. Posso crer que as palavras atribuídas a Jesus pelos evangelistas foram mesmo ditas por ele, bem como crer que as palavras proferidas por Paulo foram também aprendidas de Cristo.

Com esta convicção, leiamos toda a Bíblia na certeza de que o nosso Senhor fala em cada uma de suas páginas e, como servos, submetamo-nos de coração às suas ordenanças, acatando todo o desígnio de Deus.

Milton Jr.

5 comentários:

Ligian disse...

Milton, tenho visto tanto isso que vc falou... as pessoas acreditando no que lhes convém da Bíblia. Será que esses "cristãos" não são, no caso, "pseudo-cristãos"?!
Excelente artigo!
Um beijo nas suas meninas!!

Milton Jr. disse...

Ei Ligian,
essa é uma pergunta que, de fato, tem de ser feita. Apesar de ser difícil julgar a salvação alheia, é muito complicado entender como cristão alguém que não ama a Bíblia, principalmente, por ser ela a fonte de conhecimento do Redentor e de sua vontade.
O beijo será dado.. rs.

Ticva (Talmid) Silva disse...

Caro Milton Jr. Acredito que não se trate apenas de "pseudo-cristãos", pois segundo as escrituras, eles estarão sempre no meio do povo de Deus como o "joio", mas sim a maturidade dos atuais cristãos. Antigamente via cristãos sadios na fé, firmes e conscientes dos ensinos das escrituras. Atualmente, os cristãos são tão superficiais e, por que não dizer, infantis na fé que, por falta de um comprometimento maior em aprender as escrituras, acabam por fazer alegações imaturas como esta baseadas no pouco que leêm da propria Bíblia, quando a leêm.

Anônimo disse...

Já vi esta Bíblia, com as palavras de Jesus, destacadas em vermelho. Mas nunca pensei na possibilidade de alguém se valer apenas delas, descartando o resto das Escrituras.
Muito bem observado!

Ana Carolina disse...

Crer na Suficiência das Escrituras é ter esta plena convicção de que toda a Bíblia é verdadeira e escrita pelo único Senhor, através de homens escolhidos por Ele para serem Seus instrumentos. Realmente, é mais do que lamentável ver como muitas pessoas têm se enganado crendo só no que lhes convém.