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5 de agosto de 2010

A Igreja e a Pregação Expositiva



Dentre as grandes crises que a igreja cristã contemporânea enfrenta talvez a mais séria esteja relacionada aos púlpitos das igrejas. Há uma grande multidão de famintos que freqüentam regularmente muitas igrejas, mas simplesmente não são saciados com a genuína Palavra de Deus pregada nos sermões semanais. De fato, muitos crentes verdadeiros têm demonstrado uma grande insatisfação com os pregadores modernos. Porém, apenas esse sentimento de insatisfação não é o suficiente. Uma igreja precisa orar e exigir que seus pastores ocupem seu tempo com o estudo, meditação, oração e preparação de sermões expositivos.

Mas, que tipo de pregação é essa, por que é tão importante, e, principalmente, que benefícios ela produz na igreja? Poderíamos definir como pregação expositiva aquela cujo objetivo é expor as verdades de Deus ensinadas em um texto específico da Bíblia e cujo tema, idéias principais, argumentação e aplicações são extraídas do próprio texto lido. Ou seja, ao invés de levar para um texto suas idéias, o pregador expõe fielmente o que o texto disse (primeira geração de ouvintes a quem o texto se dirigiu) e diz ao povo de Deus hoje.

Nesse tipo de pregação algumas características naturalmente serão evidenciadas. Primeiro, ela é essencialmente doutrinária, pois ainda que se baseie em um texto (ou textos!) utiliza outros textos da Bíblia para dar suporte à argumentação. Segundo, ela é cristológica, uma vez que o alvo da pregação é falar de Cristo, com Cristo e por Cristo. Jesus será o alvo da pregação, pois Ele é o “Autor e consumador da fé” (Hb 12:2) e o propósito de Deus é, através da pregação, nos tornar mais parecidos com Seu filho, Jesus Cristo. Terceiro, o pregador fala com autoridade, pois como embaixador divino não faz apenas um comentário do texto bíblico, ou simplesmente usa o texto como pretexto para dizer o que pensa, mas, diferentemente, expõe com fidelidade e autoridade a Bíblia para o povo de Deus. Ele compreende que quando a Palavra de Deus é pregada com fidelidade, Deus mesmo está falando ao seu povo, quer seja consolando-o, exortando-o, ensinando-o, ou educando-o na educação da Justiça (2Tm 3:16-17). Por último, ela é claramente experimental, pois não apenas o pregador busca em humildade viver o que prega, mas sabe que sua pregação será somente eficaz se os seus ouvintes forem afetados de forma prática pelas verdades ensinadas. Assim, diferente de uma homilia, sua pregação terá um caráter aplicatório, tanto para crentes como descrentes que o ouvem.

Obviamente esse tipo de pregação é importante porque a Palavra de Deus está sendo trazida com fidelidade a igreja. Por um lado, o pregador esconde-se atrás das Escrituras e decide nunca sair de lá durante seu ministério. Ele sabe que a pregação é nada mais, nada menos, do que a viva voz de Deus (viva vox Dei), e em lugar de entreter o público com estórias e piadas, o pregador sabe que seu papel não é pregar o que é popular, ou o que agrada ao povo, mas o que Deus ordena nas Escrituras. O grande imperativo bíblico, “Prega a palavra!” (2 Tm 4:2), reverbera em seu coração todas as vezes que ele se senta para preparar um sermão. Por outro lado, a igreja entende que a palavra pregada expositivamente é o único poder capaz de mudar vidas, uma vez que Deus mesmo está falando ao coração do seu povo e convertendo os ímpios através desse tipo de pregação. Os membros de uma igreja saudável se recusarão a comer palha, e o critério fundamental na escolha dos seus líderes será o de homens que manejam bem a palavra da verdade. Pois, se crêem que a Bíblia é a Palavra de Deus, estarão ansiosos para ouvi-la e dar-lhe a devida atenção.

Um resultado claro dessa centralidade da Palavra de Deus na igreja, sobretudo no púlpito, será o de produzir, em primeiro lugar, uma reavaliação do que significa ser uma “igreja saudável”. Igrejas enfermas são caracterizas por membresias onde a Palavra de Deus ocupa um lugar distante na vida e no culto dos seus membros. Por outro lado, a Bíblia é tida em alto estima em igrejas saudáveis, porque não somente lhes apresenta no que devem crer, mas, mais importante, em como devem crer. Doutrina e prática não serão duas realidades distantes, mas realidades inseparáveis na vida dos membros. Além disso, a pregação expositiva fornecerá o remédio certo para corrigir cada problema surgido no meio da igreja. Os membros apenas descobrirão a natureza, essência e características da verdadeira igreja e vida cristã através das próprias Escrituras. Igrejas enfermas, onde a pregação expositiva não é central, podem até ter aparência de igreja saudável, mas logo os sintomas da enfermidade se manifestarão (partidarismo, divisões, falta de testemunho de seus membros, etc.). De fato, igrejas enfermas podem até causar poucos problemas aos cristãos mais saudáveis que buscam um conhecimento bíblico por conta própria, mas causam um prejuízo terrível no crescimento e amadurecimento dos crentes mais novos e fracos. Pois, como pode haver crescimento, sem alimento? Como Lutero advertia seus ouvintes: “é dever dos pregadores e ouvintes, em primeiro lugar, e antes de qualquer coisa, atentar e ter plena certeza que sua doutrina vem realmente da verdadeira Palavra de Deus.”



Robério Odair Basílio de Azevedo

21 comentários:

Ligian disse...

Pastor, nunca é muito se preocupar com isso! Recentemente ouvi um pastor dizendo que não prega doutrina quando o público não é reformado... fiquei me perguntando como é que ele consegue fazer isso, já que nossa doutrina é bíblica... enfim, são as incoerências de quem está mais preocupado em agradar os ouvidos dos homens.
O Charles postou recentemente um texto em seu blog sobre a pregação expositiva, vale a pena dar uma olhada:
http://arteejubilo.blogspot.com
Deus o abençoe!

Samuel disse...

Robério,

O tema é relevante demais. Creio que o púlpito precisa mesmo resgatar o papel central da Palavra de Deus de forma que a autoridade seja da Escritura.

Que bom ver que a Pregação Expositiva está ganhando força no nosso meio. Pela graça de Deus e com muita oração, isso tende a levar a Igreja do Senhor num caminho mais seguro.

Receba meu fraterno abraço,

Charles Melo disse...

Robério,

Excelente artigo. Infelizmente, com todas as vantagens da pregação expositiva, muitos não a praticam. Os motivos são vários, desde a preguiça à discordância franca e aberta mesmo, especialmente dos adeptos de Fosdick.

Que Deus o abençoe e que a pregação expositiva seja mais praticada para o bem da sã doutrina e para o fortalecimento da igreja.

Alan Kleber Rocha disse...

Caro Robério,

Muito enriquecedor o seu post.

Graças a Deus, o interesse pela pregação expositiva tem crescido em nosso país, mas o desafio ainda permanece. Muitos pregadores continuam substituindo a genuína pregação do evangelho por palavras de ordem, auto-ajuda ou piadas e toda sorte de entretenimento.

Entretanto, quanto mais falamos e escrevemos acerca deste assunto vital para a Igreja de Cristo, Ele mesmo por sua providência desperta o povo e convence os pregadores de sua verdadeira missão.

Um grande abraço,

Alan

Milton Jr. disse...

Robério,
excelente post. Queira o Senhor que cada dia mais pregadores despertem para a importância da exposição bíblica.
grande abraço.

Salma Medeiros disse...

Muito bom o post...na IPB de marabá estamos estudando na última quarta de cada mês um livro que discorre sobre esse assunto " as marcas de uma igreja saudável", e uma das primeiras é justamente essa, a pregação expositiva da palavra, as outras marcas irão ser conseguencias dessa.
=]

João Filho disse...

Excelente! Albert Mohler Jr escrevendo sobre o assunto citou o que faço questão transcrever: “O verdadeiro embaixador de Cristo sente que ele mesmo está diante de Deus e tem de lidar com as almas como servo de Deus, em lugar dele, e que ocupa uma posição solene — nesta posição, a infidelidade é desumanidade e traição para com Deus”. Spurgeon.
Sejamos Embaixadores de Cristo que “prega como um moribundo a pessoas moribundas” Baxter.

Anônimo disse...

Pena que o Príncipe dos Pregadores não pregava expositivamente.

Samuel disse...

Salma e João Filho,

Que bom ver a turma de Marabá por aqui.

Anônimo,

depende do que você chama de pregação expositiva, pois há muito mito do que ela realmente é.

Dorisvan Cunha disse...

Rev. Texto muito bem elaborado e extremamente necessário. A crise nos púlpitos é uma realidade; precisamos de pastores comprometidos de fato com a fiel pregação da palavra de Deus. QUe Dus continue abençoando os amados participantes deste blog, e que aqui seja um lugar de reflexão que contribua com o crescimento do Reino.

Salma kellya disse...

Reverendo Samuel estamos aguardando outra visita viu?! sinta-se convidado a retornar a Marabá rsrs
Abraços!!!

Tiago Cesar disse...

Paz seja conosco!

Num mundo que jaz em trevas como o nosso, a pregação expositiva, a Vox Dei, é essencial para através do Evangelho, o poder de Deus para a salvação, fazer brilhar a luz de Cristo, reavivando assim a igreja cristã e quebrantando eficazmente os mais enegrecidos corações.

;)

Samuel disse...

Dorisvan e Tiago,

O que vocês falaram reflete exatamente nossa opinião. Hoje é fácil se esconder por trás de uma boa retórica e empolgação e se esquecer que o que mais importa é o conteúdo (bíblico somente) da pregação.

Salma,

foi meu prazer de estar com vocês. Aprendi muito aí.

Anônimo disse...

Pastor Robério,

Uma pregação tópica pode ser considerado uma pregação ou apenas uma aula?

Ronaldo Vila Verde

Naziaseno disse...

Robério,
Esse é o tema dos temas: a pregação. A reforma que tanto precisamos flui do trono da graça passando pelos púltpitos gerando transformação(Ezequeil 37). É essa a nossa luta - "a maior do mundo!"
É isso aí.

Naziaseno disse...

Robério,
Esse é o tema dos temas: a pregação. A reforma que tanto precisamos flui do trono da graça passando pelos púltpitos gerando transformação(Ezequeil 37). É essa a nossa luta - "a maior do mundo!"
É isso aí.

Robério disse...

Ronaldo,

Uma pregação tópica é apenas uma pregação tópica, nada mais. É aquela em que um pregador arranja os textos ao tema que pretende falar. O perigo é que os textos bíblicos são usados muito mais como textos-prova do que fruto de boa exegese — que é aquela que procura analisar o gênero literário do texto, gramática, argumentação, etc. Em suma: É um tipo de pregação arriscada, que pode ser muito mais fruto da engenhosidade do pregador, do que de coerente interpretação bíblica, uma vez que a linha de argumentação vem da habilidade do próprio pregador e não, necessariamente, do próprio texto. Espero ter ajudado.

Robério

Robério O. B. Azevedo disse...

Ronaldo,

Uma pregação tópica é apenas uma pregação tópica, nada mais. É aquela em que um pregador arranja os textos ao tema que pretende falar. O perigo é que os textos bíblicos são usados muito mais como textos-prova do que fruto de boa exegese — que é aquela que procura analisar o gênero literário do texto, gramática, argumentação, etc. Em suma: É um tipo de pregação arriscada, que pode ser muito mais fruto da engenhosidade do pregador, do que de coerente interpretação bíblica, uma vez que a linha de argumentação vem da habilidade do próprio pregador e não, necessariamente, do próprio texto. Espero ter ajudado.

Robério

Robério O. B. Azevedo disse...

Naziaseno,

É bom encontrá-lo aqui. De fato irmão, esse é o tema dos temas, do qual depende o vigor ou o declínio espiritual da igreja atual.

Robério

Miss. Itamar Maciel de Sousa disse...

Pr. embora eu não o tenha desfrutado ao meu lado por mais tempo, posso desfrutar de sua sabedoria aqui, e fico muito grato a Deus por ter pastores como o Sr. com um coração voltado a expor as antigas doutrinas da graça através de uma fiel exposição bíblica, algo que tem estado muito escasso até mesmo nos púlpitos de nossa amada IPB. Que Dios te Bendiga.

Anônimo disse...

ler todo o blog, muito bom