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19 de agosto de 2010

A verdade, ou verdades?

A Escritura Sagrada exige que quando possível tenhamos paz com todos os homens, mas nunca em detrimento da verdade (Rm 12:18). No comum e corrente discurso de tolerância, inclusive no meio evangélico, repreender é sinônimo de desamor e arrogância. Não seja ingênuo, isto é resultado da mentalidade cultural predominante! É engraçado como todos reivindicam a verdade dos anunciantes, professores e políticos, e esta independentemente do seu grupo teórico,[1] exige-se que todos sejam correspondentes aos fatos. A inexatidão ou incoerência é um pecado imperdoável quando se afeta o bolso!

Mesmo entre relativistas teóricos, que querem fazer areia da verdade, existem momentos de contradições práticas. Imagine como exemplo o Cristianismo, se ele é verdadeiro, então, todas as demais religiões que o contradiz são necessariamente falsas, e neste caso não é possível existir um meio termo, pois isto seria sincretismo, e conseqüentemente, a negação da fé cristã. Se o relativismo for aplicado ao discernimento da verdade, aceitando a pacífica convivência de inverdades e contradições como sendo apenas meras interpretações diferentes da verdade, então, estaremos negando Àquele que é a fonte da verdade e lançando o fundamento do caos em nossas mentes! Dentro da mesma linha de pensamento, se por hora, deixarmos a epistemologia e, nos voltarmos para a ética, teremos um problema prático ainda maior, porque contradições não são apenas equívocos, ou confusão semântica, de fato são mentiras e dependendo do caso, é puro dolo. Olhe que alguém pode ter que indenizar, ou até ser preso! Por implicação, podemos concluir que, uma falsa idéia sobre a verdade oferece um conceito falso da vida. Por isso Gordon H. Clark reconhece que
não existe uma antítese entre verdade intelectual e moralidade como superficialmente algumas mentes imaginam. Uma mentira, que é a negação da verdade, é imoral. Ela é pecado por pensar incorretamente. (...) Não pode existir tal coisa como moralidade, a menos que existam verdadeiros princípios morais. Moralidade depende da verdade.
[2]

Numa reação imprópria os pós-modernistas acusam de orgulho a convicção de uma verdade absoluta. Posturas firmes, inteligentemente bem articuladas, evidenciadas pela pesquisa e de polida argumentação, sofrem a acusação de que a segurança conceitual é mero pedantismo sectário. Que absurdo! O pluralismo acusa a convicção de soberba. É um erro usar a palavra arrogância para se referir à convicção, e a humildade significando dúvida. Perceba que está na moda ser humilde, isto é, ter incertezas até do óbvio. Repete-se o que G.K. Chesterton escreveu há um século. Ele declara que
o que sofremos hoje é de humildade no lugar errado. A modéstia se afastou do setor da ambição e se estabeleceu na área das convicções, o que nunca deveria ter acontecido. Um homem devia mostrar-se duvidoso a respeito de si mesmo, mas não acerca da verdade; isso foi completamente invertido. (...) Existe uma humildade característica de nossa época; acontece, porém, que ela é uma humildade mais venenosa do que as mais severas prostrações dos ascéticos... A velha humildade fazia que o homem duvidasse de seus esforços, e isto, por sua vez, o levaria a trabalhar com mais empenho. Mas a nova humildade torna o homem duvidoso a respeito de seus alvos; e isto o faz parar de trabalhar completamente... Estamos a caminho de produzir uma raça de homens tão mentalmente modestos que serão incapazes de acreditar na tabuada de multiplicação.
[3]

É bom esclarecer que quando ataco o pós-modernismo não estou, em contrapartida, aceitando ingenuamente o ultrapassado modernismo. No desdobramento da história, o período anterior ao que vivemos, não foi melhor para o Cristianismo do que o presente. Numa leitura esclarecedora Os Guiness observa que “onde o modernismo era um manifesto de autoconfiança e auto-bajulação humana, o pós-modernismo é uma confissão de modéstia, se não de desespero. Não há verdade nenhuma; somente verdades. Não há nenhuma grande razão; somente razões.”[4] O conhecimento e o discernimento da verdade era considerado como possível no modernismo, e é este ponto de concordância que acentuo.

Numa conferência no Brasil, John MacArthur Jr. declarou que “a heresia vem montada nos lombos da tolerância”![5] De fato, os ventos frios do engano não vêm como tormentas, mas como suaves brisas entre as frestas da janela dos desatentos livres pensadores. O abandono da Escritura, como única fonte e regra de fé e prática, abre para as mais extravagantes possibilidades de desvios.[6] Para ilustrar esta afirmação basta apenas que recordemos do movimento teológico liberal no século XIX. Não esqueçamos que a preocupação destes teólogos era abandonar o Cristianismo clássico e substituí-lo, por um novo sistema de crenças, transformado e adaptado para uma nova realidade, relevante aos reclames de uma sociedade que não queria submeter-se ao senhorio de Cristo, mas, ansiava os benefícios da religião cristã e da filosofia naturalista. Entretanto, ao adulterar o evangelho, o liberalismo teológico perdeu a sua essência cristã, despojando-se dos seus fundamentos. Repudiando a teologia liberal, o neo-ortodoxo H. Richard Niebuhr descreveu a sua essência, afirmando que ela apregoa “um Deus sem ira que levou homens sem pecado a um reino sem julgamento pelo ministério de um Cristo sem cruz.”[7] O discurso liberal de tolerância acompanhava o esforço de adaptar a antiga fé cristã. Apesar de toda linguagem e terminologia da teologia clássica, tanto o liberalismo como a neo-ortodoxia, estão vazios da semântica divina, bem como dos seus resultados sobrenaturais.

O Senhor Jesus é o nosso exemplo de humildade e de vigorosa fidelidade à verdade (Jo 13:14-15). Antecipadamente o profeta Isaías declarou que em Cristo “dolo algum se achou em sua boca” (Is 53:9). O nosso redentor, que é o revelador da verdade, disse que: “se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8:31-32, NVI; veja também Mt 11:27; Hb 1:1-3). Em momento algum, o Filho de Deus foi tolerante com os falsos mestres de seus dias (Mt 23:1-36), nem os apóstolos adotaram esta postura com a mentira e o engano. Mas, infelizmente o evangelicalismo sofre duma crise de infidelidade. Como resultado da influência do pós-modernismo no meio das igrejas evangélicas James M. Boice e Philp G. Ryken constatam que
o que uma vez foi falado das igrejas liberais precisa ser dito das igrejas evangélicas: elas buscam a sabedoria do mundo, crêem na teologia do mundo, seguem a agenda do mundo, e adotam os métodos do mundo. De acordo com os padrões da sabedoria mundana, a Bíblia torna-se incapaz de alimentar as exigências da vida nestes tempos pós-modernos. Por si mesma, a Palavra de Deus seria insuficiente de alcançar pessoas para Cristo, promover crescimento espiritual, prover um guia prático, ou transformar a sociedade. Deste modo, igrejas acrescentam ao simples ensino da Escritura algum tipo de entretenimento, grupo de terapia, ativismo político, sinais e maravilhas - ou, qualquer promessa apelando aos consumidores religiosos. De acordo com a teologia do mundo, pecado é meramente uma disfunção, e salvação significa desfrutar de uma melhor auto-estima. Quando esta teologia adentra a igreja, ela coloca dificuldades em doutrinas essenciais como a propiciação da ira de Deus, substituindo-a com técnicas e práticas de auto-ajuda. A agenda do mundo é a felicidade pessoal, assim, o evangelho é apresentado como um plano para a realização pessoal, em vez de ser a caminhada de um comprometido discipulado. Para terminar, vemos que os métodos do mundo nesta agenda egocêntrica são necessariamente pragmáticos, sendo que as igrejas evangélicas estão se esforçando a todo custo em refletir o modo como elas operam. Este mundanismo tem produzido o ‘novo pragmatismo’ evangélico.
[8]

Esta é uma briga que terá continuidade. Entretanto, apenas precisamos permanecer firmes na verdade, ou seja, persistentemente fiéis à Escritura Sagrada (Gl 1:6-9; 2 Ts 2:7-12).

Notas:
[1] Sugiro a leitura de R.C. Sproul, Defendendo sua Fé (Rio de Janeiro, CPAD, 2007), pp. 31-35. Sem entrarmos em discussão, confesso que adoto a teoria da coerência. Assim, a lei da não-contradição, que é um elemento essencial para esta teoria, diz que não é possível coexistir duas afirmações contrárias no mesmo sentido, ao mesmo tempo, e ainda assim, serem igualmente verdadeiras.
[2] Gordon H. Clark, The Johannine Logos (Unicoi, The Trinity Foundation, 2004), p. 68.
[3] G.K. Chesterton, Orthodoxy (Garden City, Doubleday, 1957), pp. 31-32.
[4] Os Guinnes, Fit Bodies, Fat Minds (London, Hodder & Stoughton, 1994), p. 105.
[5] Peço perdão aos leitores quanto à fonte desta citação, pois ela se encontra numa palestra realizada por Dr. John MacArthur Jr. num dos congressos da Conferência Fiel, que pode ser encontrada no site da Editora Fiel.
[6] Este espírito retorna numa nova roupagem. John MacArthur Jr. observou que “aparentemente o maior medo que o movimento evangélico tem hoje em dia é de ser visto como posicionado em desarmonia com o mundo”, in: Princípios para uma cosmovisão (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003), p. 8.
[7] H. Richard Niebuhr, Kingdom of God in America (New York, Harper and Row, 1937), p. 103.
[8] James M. Boice e Philp G. Ryken, The Doctrines of Grace (Wheton, Crossway Books, 2006), pp. 20-21.

17 comentários:

Samuel disse...

Toka,

Você é o nosso teólogo! Que post alentador... ele reflete exatamente a luta do nosso dia-a-dia pela Verdade que é a Palavra de Deus.

Ainda enxugando os olhos, conclamo os leitores a RELER esse artigo e aprendam a amar cada vez mais a Palavra Absoluta da Verdade de Deus.

Daniel Kim disse...

Muito encorajador esse post. É exatamente o que vejo ocorrer nas igrejas evangélicas da comunidade coreana que frequento, com raríssimas exceções.
É comum ver que os eventos substituem o estudo da Palavra de Deus.
Não há mais fome e sede pela pregação das Escrituras.
E caso alguém venha a questionar as "novas doutrinas teológicas", como do Rob Bell, somos taxados de ultrapassados, caretas, etc.
Mas temos que continuar firmes no estudo sadio e correto das Escrituras.

Que Deus o abençoe!

reformadoreformandome disse...

Excelente post pastor! A posição de Clark em quanto à verdade, sem dúvidas, é a melhor posição e ela é apoiada pela CFW que afirma que o conselho de Deus, que é a verdade, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela (coerência lógica).

Marcelo

Charles Melo disse...

Toka,

Batendo no relativismo do pós-modernismo, você acabou desnudando o liberalismo e a neo-ortodoxia. Fantástico o seu post. Enquanto lia seu artigo, me lembreu de uma música que diz: "A tolerância é a moda geral; só não toleram a Palavra. E vão morrendo tendo unidas as mãos por uma ética falida".

Abraço!

Charles Melo disse...

Quem quiser ouvir a música "Pós-Modernidade", entre no blog da Ligian. Toca automaticamente.

http://www.palavrasligian.blogspot.com/

Abraço!

Ewerton B. Tokashiki disse...

Caro Samuel
Sou grato pela sua recomendação.

Querido Daniel Kim
Dificuldades no ministério pastoral começa com aqueles colegas que não pastoreiam as ovelhas de Deus, mas preferem oferecer entretenimento para os bodes. Fidelidade e dedicação pastoral, as verdadeiras ovelhas saberão ouvir a voz do Mestre pelo teu pastoreio.

Querido Charles
Dei uma olhada no blog que vc indicou. É da tua esposa! Gostei dos textos e da música. Valeu!!!

Alfredo de Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alfredo de Souza disse...

Ewerton.

Excelente postagem. Esse dezenovismo da junção dos antagônicos, do esvaziamento da Verdade e do niilismo que a tudo justifica é uma praga que se aloja silenciosamente entre nós. Silenciosamente porque, além de se instalar de sorrate, aproveita-se do silêncio piegas dos covardes que não se levantam em favor da Verdade do Senhor Deus.

Liturgia, hermenêutica, ética, moral etc. estão relativizadas pelos sórdidos travestidos de tolerantes e inovadores do pensamento cristão, mas que, na verdade, não passam de indivíduos despossuídos de virilidade teológica e robustez doutrinária para carregar sobre si o Evangelho que é o poder de Deus.

Parabéns.

Samuel disse...

Outra coisa...
Muito sugestiva a foto que você usou no seu post!

Alfredo de Souza disse...

Samuca, gostou da foto? Então veja esta comunidade do Orkut. Dá uma passada lá.

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=1564414

Naziaseno disse...

Pr. Ewerton,

Exclente post e postura! É isso mesmo! Aquele que se coloca "na brecha" e tentar respirar o ar fresco e renovador da teologia reformada e, ao mesmo tempo, veda qualquer possibilidade de abrir espaço para o erro, o engano, é qualificado do outro lado do muro de intolerante, presunçoso, arrogante e puritano (ou neo). Esse último termo é o preferido do momento. Até no meio reformado-calvinista percebo que muitos passeiam com a verdade tendo nela posto colera. Muitos teólogos doutos estão com a verdade sim - da mesma maneira que eu passeio com os meus poodles nas tardes do interior baiano, acorrentados. Gostaria de ouvir muita gente boa andando livremente com a verdade: deixe-a passear soltamente nos jardins dos nossos cultos e liturgias. Quando isso acontecer ela retornará para nós trazendo, não uma bolinha de tênis, mas uma Confissão de fé, um diretório de culto e os catecismos. "Toma e lê..."

Charles Melo disse...

Naziaseno,

Que comentário brilhante! Precisamos mesmo de firmeza confessional, o que é honesto, pois professamos aceitar os símbolos de fé como fiel exposição das Escrituras quando ordenados! Como tem gente sem palavra por aí, gente desonesta, que professa uma coisa, depois vira a face abandonando o que confessou alegando atualizar a sua fé a fim de dialogar mais com a presente geração! Puro engodo! Vão prestar contas com o Caminho, e a Verdade, e a Vida!

Abraço!

Alan Kleber Rocha disse...

Caro Ewerton,

Parabéns pelo post! Que o Senhor Deus nos ajude a proclamarmos Jo 8.32 e 36. Ele é a verdade que liberta, a verdade para hoje.

Forte abraço,

Alan

Ligian disse...

A mentira massageia o ego e, muitas vezes, mesmo que temporariamente, é alentadora, não?! Creio que esses sejam alguns dos motivos pelos quais as pessoas (mesmo as que congregam em igrejas firmes na Palavra) têm preferido a mentira.
Excelente post!

Dorisvan Cunha disse...

Ewerton B. Tokashik, post excelente.
entendo que essa sua frase resume tudo: "uma falsa idéia sobre a verdade oferece um conceito falso da vida". Essa é a grande questão: Conforme o homem pensa assim ele age.
Se os cristãos do nosso século não compreenderem a centralidade dessa temática não haverá esperança; teremos apenas a continuidade do falso avivamento que está ai, cuja proposta não muda o governo, a educação, a ética: não muda nada! Posto que este está fundamentado no emocionalismo e no sentimentalismo de Friedrich Schleiermacher.
Crio que não podemos abrir mão da verdade absoluta. A "morte de Deus" e a frustração com a razão científica gerou um ambiente complicado e hostil à fé cristã histórica, mas tal atmosfera não deve ser visto apenas do ponto de vista negativo. creio que é este o momento oportuno para se responder com a Verdade do Cristianismo às vidas que desde a muito estão frustradas e desesperadas pela falta de respostas concretas para as questões últimas da vida.

Neemias Reinaux Gomes disse...

A maioria das pessoas em nosso tempo não crê em valores absolutos. O conceito de verdade e,consequentemente,o de moral,ou é relativo ou subjetivo.O relativismo é a teoria que ensina que os valores são construidos pelo consenso social em uma... determina época. O subjetivismo ensina que os valores são construídos pelo sujeito. É assim que as pessoas pensam em nossa época. Daí é comum ouvimos: " você tem a sua verdade e eu tenho a minha" ou " isso era antigamente, hoje tudo mudou".O cristianismo reclama para si o fato de possuir a revelação escrita de Deus que é norma pata todo homem.
É por isso que o seu post se faz necessario. Judas 2.
Estou lendo este livro - Christianity and the Postmodern Turn

lindinha disse...

Révi parabéns pelo post...é alentador saber que estamos buscando conhecer a palavra do senhor de maneira fiel..no entanto sinto a falta de vivência da palavra que pregamos..muitos estão dentro das nossas igrejas ouvindo e recebendo tão saboroso favo de mel..porém não sentem o verdadeiro sabor deste mel...Jesus defendia a verdade, tinha uma postura fiel à ela..não alisava o pecado...repreendia o pecador (porque o verdadeiro amor não encobre as faltas)..e discipulava, cuidava de pessoas...era simples nos seus ensinamentos porque pregava com sua vida...sinto falta de viver isso...tenho certeza absoluta e convicção de que a palavra do senhor não volta vazia e que ela fala tanto ao coração do orador quanto do seu público...nisso sou consolada pelo Espírito Santo de Deus...
Que desta forma o senhor continue nos usando através dos dons e talentos que ele nos concedeu para alcançar os perdidos..
Que possamos brilhar mais e mais até sermos dia perfeito.."e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" Amém!!!

PS: estou com muitas saudades de todos..manda um abraço pra Vanessa, Rebeca, Joao marcos,Paulinha e larissa..amo vcs!!