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20 de setembro de 2010

Carta ao irmão Commodus Alienatus

acomodado

Caro irmão Commodus,

Agradeço por você ter concordado em respondê-lo aqui mesmo no blog Bíblia com Isso. De fato, seus questionamentos se assemelham ao da grande maioria dos evangélicos brasileiros. Desde já recomendo a você a leitura dos dois artigos publicados pelo Pr. Eduardo que abordam questões pertinentes ao período das eleições em nosso país: Política, e a Bíblia com isso?, e Brasil, Ame-o ou Deixe-o. Eles ajudarão e muito na sua reflexão.

Como conversamos anteriormente, a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) não possui o “candidato dos presbiterianos” para representa-la junto aos poderes executivo ou legislativo. Mas por quê? Porque a IPB entende que todo o cristão é livre para escolher seus candidatos sem nenhuma pressão ou imposição religiosa, e que os líderes governamentais não devem legislar ou trabalhar em prol de um segmento (religioso ou social), mas dos interesses de todos os cidadãos. Inclusive achei muito estranho o pronunciamento do presidente do Supremo Concílio da minha  denominação recomendar nomes de candidatos (inclusive pastores) para os cristãos presbiterianos no Portal Oficial da IPB. Além de não ser competência nossa, pois somos ministros da Palavra, entendo que para isso existe a propaganda política partidária não é mesmo?

Contudo, assim como nas demais áreas da vida cristã é dever da Igreja de Cristo e seus pastores usarem a Escritura para ensinar e orientar os fiéis sobre o exercício da cidadania através da escolha correta e coerente daqueles que governarão a nossa cidade, o nosso Estado e o nosso País. Mas, sem mais delongas,vamos as suas perguntas:

Pastor, é certo o cristão votar em pastores que se candidatam a cargos públicos? Por quê?

Resposta: Não. Em primeiro lugar, porque o Novo Testamento não menciona como parte do ministério pastoral o envolvimento do pastor com cargos públicos. Em segundo lugar, porque o chamado pastoral é o da liderança espiritual e não o da militância política. A Bíblia afirma que a liderança na igreja pode ser almejada, porque esta é uma obra excelente (1Tm 3.1). A questão não é se Deus pode chamar cristãos para a vocação política, mas se Ele vocaciona pastores para o palanque ou para os púlpitos. Veja só: Aquele que é chamado para ser pastor (1) deve ser apto para pregar e ensinar o Evangelho aos homens, (2) dedicar-se à oração e estudo das Escrituras, (3) visitar os enfermos e aconselhar as ovelhas do nosso Senhor Jesus Cristo. Infelizmente, muitos pastores estão vendendo o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, e isso não é bom. O argumento? “Como político poderei exercer uma influência ainda maior, lutando pelos interesses do povo de Deus”. Esses pastores insultam a Deus porque consideram o ministério da reconciliação algo de somenos importância.

Portanto, todas as vezes que você se sentir inclinado a votar em um homem que se diz pastor, lembre-se que o nosso Senhor Jesus Cristo, abdicou de sua glória para pastorear as suas ovelhas. Deus tomou o seu único Filho e o fez um pregador. Satanás lhe ofereceu todos os reinos do mundo, mas Ele continuou firme em seu propósito de pregar o Reino de Deus aos homens. Quando Ele retornou a presença do Pai, após a sua ressurreição, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens, fazendo muitos “… pastores e mestres”, líderes espirituais que vivem o dia-a-dia da igreja com a finalidade de aperfeiçoar os crentes e edifica-los (EF 4.11-13). A verdade é que se alguém diz ser pastor, mas deseja a política, nunca compreendeu a sublimidade do ministério pastoral.

Mas pastor, porque me preocupar com política se tudo vai bem?

Resposta: Na semana passada estava assistindo um cientista político falar sobre um fenômeno comum nos países democráticos: o comodismo que bloqueia o senso crítico ou questionador no pensamento político do cidadão. Vamos chamar isso de síndrome do tudo vai bem. Os afetados por esta síndrome não dão a mínima para o que acontece no cenário político do seu país. Eles simplesmente votam no candidato que oferecerá potencialmente melhores vantagens. E se tudo vai bem, porque mexer? Em time que joga bem não se mexe, diz o ditado popular não é mesmo?

Deixe-me lhe dar uma ilustração. Em Aracaju cidade onde eu moro, nós temos uma orla marítima maravilhosa. A Orla da Atalaia possui dentre outras atrações um belo lago. Todos os dias moradores da cidade ou turistas oferecem algumas migalhas de pão aos patinhos que vivem no lago da Orla de Atalaia. Eles estão tão condicionados que basta alguém chegar à beira do lago que saem nadando em fila até você. Eles não estão preocupados com a qualidade ou conteúdo das migalhas, porque o importante é que você dê o que eles querem. Pobres patinhos! Podem até mesmo ser sequestrados ou envenenados, mas não questionarão. Tudo vai bem para eles. E se tudo vai bem, pra que desconfiar?

O problema é que o mesmo ocorre com a nossa consciência política. O aparente senso de tranquilidade pode ser rapidamente identificado enquanto estamos à mesa jantando e ao mesmo tempo assistimos na TV uma criança viajar todos os dias com fome, doente, quilômetros a pé para chegar a sua escola que está totalmente deficiente, com professores mal remunerados, e constatamos que isso não mexe mais com a gente. Para muitos cristãos a conclusão é lógica: Deus é soberano, nada acontece sem sua permissão, logo, é melhor não gastar tempo me preocupando com o que acontece ao meu redor.

Não importa se o passado do meu candidato é sujo, se ele se envolveu com toda sorte de corrupção imaginável e inimaginável. Se ele é evangélico e mesmo assim rouba o leite das crianças, a educação dos estudantes, a saúde dos doentes e coloca tudo dentro de sua cueca. Não importa se o meu candidato defende e apoia a união de pessoas do mesmo sexo, se ele deseja que crianças abandonadas sejam adotadas por gays ou lésbicas ou pretende censurar a liberdade de expressão. Muito menos importa se ele defende que uma mãe motivada por razões egoístas decida abortar o seu filho no nono mês de gravidez, pois dela é a barriga, faça como quiser!

E sabe por quê? Porque se eu tenho o meu salário, bolsas e mais bolsas, créditos e mais créditos, se eu tenho pão e leite, bens móveis e imóveis, e todos os políticos são da mesma laia, o que me importa de verdade é garantir o que é meu. Você pode dizer, por favor, não seja tão pessimista ou tão apocalíptico pastor! O problema meu prezado Alienatus é que tal síndrome muito mais anestesia ou condiciona a consciência do que desperta o cidadão para o verdadeiro sentimento que deveria ser marcante na vida política – o serviço público. A grande verdade é que para a grande maioria, e isso inclui um grande número de crentes, o público não é meu.

O cristão não deve se esquivar de sua responsabilidade política, pois Deus o chama a obedecer e honrar as autoridades constituídas por Ele no mundo em que vive (Rm 13.1-6). Obediência e honra significam também oração, envolvimento e cooperação. Santo Agostinho há muito tempo atrás definiu a política como a forma mais elevada de caridade possível na terra. Se exercida, legislada e aplicada corretamente a política pode se tornar um grande instrumento de bênção para a nossa nação. Isso se prova bíblica e historicamente. O reino de Israel ou as nações que abraçaram a fé reformada no século XVI vivenciaram esta benção enquanto submeteram seus governos e governantes a Deus.

Caro Comodus, quando você vê as mesmas caras na televisão, com o mesmo blá, blá, blá de sempre pedindo mais uma vez o seu voto de confiança, qual tem sido a sua reação? O que você acha que Deus pensa sobre tudo isso? Se você perdeu o senso político-crítico, cuidado! A síndrome do tudo vai bem te pegou!

Sinceramente,

Pr. Alan Kleber

Nota:

Esta carta e seu destinário são fictícios. Qualquer semelhança com o grande número de evangélicos politicamente acomodados e alienados é mera coincidência.

24 comentários:

José Aristides dos Santos Filho disse...

Caro Alan, a alienação política e a acomodação são, infelizmente, características do povo evangélico brasileiro. Graças a Deus temos exceções; vozes que se levantam contra isso.
Seu artigo, de grande relevância, nos ajuda a refletirmos sobre esse assunto. A pequena igreja Presbiteriana de Itaporanga, sabe que não voto em "pastor", sob nenhuma hipótese.
Obrigado, pelo post, digno representante do presbiterianismo em Sergipe.

Zaira disse...

Interessante, sempre me questionei porque pastores, com este título, deixariam o ministério para seguir a política. Afinal, tem ou não tem a vocação?? Sempre ouvi que aquele que almeja o ministério boa coisa quer. Ou será que alguns "pastores" almejam esse título para conquistar uma popularidade e depois se candidatar à vida pública?
É bom que as pessoas saibam: candidato evamgélico ou não evangélico que promete defender os interesses de uma categoria já começa errado: o mandato político é irrestrito. Explico: o compromisso do parlamentar não é com quem nele vota, mas com toda a sociedade, pois são os interesses dela que este representa no parlamento. Por isso, deixemos véu da falsa política que cobre os nossos olhos cair, e votemos em quem se interessa em fazer o Brasil um país melhor, não em fazer da sua vida melhor.

Charles Melo disse...

Allan,

Apreciei muito seu texto. Provavelmente, alguns colegas candidatos por aí não vão gostar, embora sua opinião tenha sido embasada na Escritura e seus argumentos sejam fortes.
Discordei apenas do final, quando você disse que "qualquer semelhança era mera coincidência". Não; qualquer semelhança é grave providência!! (eheh)

Abraço!

Alan Kleber Rocha disse...

Eheheheh!

Valeu Charles.

Abraços

Fortunato disse...

Pr. Allan

Uma excelente e oportuna reflexão para os dias que antecedem o exercício pleno da cidadania através do voto em outubro próximo. Não voto em Pastor Político, e desconfio muito de Político Pastor. O interesse precípuo destes ludibriadores se limita a falsa imitação de Cristo e, portanto, assim diverso daquele para o qual a palavra de Deus nos chama a responsabilidade. O pseudo-cristianismo deles tem alicerce em preceitos tais como "farinha pouca meu pirão primeiro"; "primeiro eu, segundo eu e terceiro eu"; além de acreditarem que o "mundo pertence de fato aos mais espertos". Nas eleições não devemos omitir e deixar a nação nas mãos de falsos líderes comprometidos com o pecado e a iniqüidade. Esta é uma atitude ingênua de omissão que deixa estar para ver como é que fica. Que Deus ilumine os seus servos eleitores e atenue o seu juízo sobre os candidatos insubmissos a sua vontade.

Fortunato disse...

Pr. Allan

Uma excelente e oportuna reflexão para os dias que antecedem o exercício pleno da cidadania através do voto em outubro próximo. Não voto em Pastor Político, e desconfio muito de Político Pastor. O interesse precípuo destes ludibriadores se limita a falsa imitação de Cristo e, portanto, assim diverso daquele para o qual a palavra de Deus nos chama a responsabilidade. O pseudo-cristianismo deles tem alicerce em preceitos tais como "farinha pouca meu pirão primeiro"; "primeiro eu, segundo eu e terceiro eu"; além de acreditarem que o "mundo pertence de fato aos mais espertos". Nas eleições não devemos nos omitir e deixar a nação nas mãos de falsos líderes comprometidos com o pecado e a iniqüidade. Esta é uma atitude ingênua de omissão que deixa estar para ver como é que fica. Que Deus ilumine os seus servos eleitores e atenue o seu juízo sobre os candidatos insubmissos a sua vontade.

edienic1 disse...

Espero que seja lido por muitos!Peço licença para reproduzi-lo.

Ligian disse...

Rev. Allan,

É triste pensar que, hoje em dia, votar em evangélicos pode não significar nada. Infelizmente cristãos de todas as denominações consideram suficiente o fato do político se denominar evangélico. Não importa o partido, o que ele defende, nada. Ah, ele é de Deus!
Tenho lutado contra a síndrome do vai tudo bem, mas tenho percebido que ela é mais difícil de ser curada do que combatida...
Vou indicar o post nas minhas redes de relacionamentos!
Deus o abençoe!

Milton Jr. disse...

Alan,
É muito triste perceber a alienação por parte de muitos crentes e o crescente número de pastores que abrem mão do chamado para fazerem carreira política. De fato, precisamos de crentes envolvidos com a política, mas aqueles que foram chamados para o evangelho, devem viver do e para o evangelho.
Belo post.

Ewerton B. Tokashiki disse...

Caro Alan

Relevante e preciso o tiro que você deu! Muito bom o artigo, enviarei o link para alguns candidatos conhecidos meus!

Abs, Ewerton

Ewerton B. Tokashiki disse...

P.S.* achei nojento a imagem argh!, num dá pra comer nada pensando onde este senhor colocou o dedinho dele rsrsrsrsrs.

Alan Kleber Rocha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alan Kleber Rocha disse...

Olá Zaira!

Obrigado pela visita e por deixar seu comentário.

Devemos trabalhar como pastores por essa conscientização política biblicamente orientada em favor dos crentes.

Que Deus te abençõe!

Alan Kleber Rocha disse...

Querido irmão Fortunato,

Como o senhor bem afirmou, precisamos de muita oração e sabedoria para fazermos as escolhas corretas.

Entendo que a agenda dos ministros da Palavra e dos Sacramentos não é política, mas biblicamente pastoral.

Abraços,

Alan Kleber Rocha disse...

Querida irmã Cineide!

Fique à vontade para reproduzir.

Abraços fraternos,

Alan Kleber Rocha disse...

Ligian,

O problema é crônico mesmo. A síndrome do tudo vai bem não só acomete os evangélicos ignorantes mas a todos nós. Por isso necessitamos sempre refletir sobre a política à luz da Bíblia. Conversando na semana passada com uma senhora, evangélica e pós-graduanda em Direito, ouvi de seus próprios lábios que votaria em um pastor candidato aqui da região, envolvido no passado com corrupção. O argumento: é melhor um servo de Deus corrompido do que um ímpio corrupto.
A coisa tá feia não é?

Alan Kleber Rocha disse...

Grande Milton,

Concordo plenamente. Acredito que Deus vocaciona cristãos para a política e pastores para pregar o Evangelho.

Forte abraço meu velho!

Alan Kleber Rocha disse...

Ewerton,

Manda brasa!

Quanto ao Commodus, pense num cabra pra gostar de comer catota kkkkkkkkkk

Grande abraço,

Alan Kleber Rocha disse...

Caro Rev. Aristides,

A IP de Itaporanga e o presbiterianismo sergipano sabem da sua seriedade e zelo pela causa do nosso Senhor Jesus Cristo.


Um grande abraço e continuemos a luta pelo Reino em nossa amada terrinha!

Alfredo de Souza disse...

Alan.

Gostei da foto do Commodus Alienatus, lembrou-me o Geléia.

Samuel disse...

Alfredo,

A foto mais parece um OGRO que qualquer outra coisa. Olha ela novamente - depois procura um espelho...

Como diria o Alan: Qualquer semelhança (não) é mera coincidência. hehehehe

Abraço,

Alan Kleber Rocha disse...

Por favor irmãos, não briguem!

Vocês acham que eu devo tirar a foto?

kkkkkkkkkkk

eduardo ferraz disse...

Caro Rev. Alan
Saudações

Excelente post e argumentações.
Como guardiões da verdade devemos no posicionar e ajudar outros a pensarem sobre a impiedade e a prática cristã.
Louvo a Deus pelos "Comudus", que negativamente ou positivamente se "incomoduns", para serem ajudados as não se "acomodaruns". rsrs.
Que o Senhor continue te abençoando e usando.

Grande abraço.
Fraternalmente em Cristo,

Eduardo Ferraz

Alan Kleber Rocha disse...

Valeu Eduardo!

Que Deus nos ajude no dia 03 de outubro!